Entre quatro paredes brancas, uma voz repousa no escuro de uma janela que apenas deixa entrar um mero raio do tímido sol. Essa voz, cansada, seca, calada de todos os gritos que já exclamara, pede descanso ao corpo pesado que a sustenta. E pede-lhe em silêncio, na esperança de o corpo, com as pernas marcadas pelos passos em vão e com os braços cruzados em sinal de desistência, lhe respeitar a súplica. Tudo lhe dói. Ao ponto de o próprio chão lhe doer. E a porta fechada de ruídos exteriores. Nem a cama desfeita dos lençóis brancos lhe escapa. Dói-lhe olhar, respirar, sentir, pensar e tentar deixar de olhar, de respirar, de sentir, de pensar.
E é aí que a voz vibra de novo. Mas vibra como um ramo de uma árvore de jardim que não sabe por que razão vibra. Na sua vibração, balbucia palavras inesperadas e sons inquietantes e gracejos ocultos e pensamentos que julgava não possuir. O espaço quadrado enche-se do ar que os braços, esbracejando, provocam com toda a agitação e nada voa porque nada há que seja passível de se mexer. Só a cama desfeita dos lençóis brancos e as paredes brancas e a janela tímida do sol que acaba por já não entrar. De repente, a perna bate indignadamente numa das paredes e o corpo que ostenta a voz cai.
Cai com dores. Ao certo, a dor não é da perna. Nem do corpo. Também não é da voz. A dor é do vazio e do eco destrutivo que provoca. Numa tentativa de acabar com o silêncio perturbador que multiplica repetições devastadoras, tapa os ouvidos com as unhas roídas dos dedos inquietos das mãos sem direcção. Os cabelos sem água tapam o rosto que as lágrimas lavam e os gritos abafam. O baloiçar do tronco sentado torna-se assustador, mas a voz não sai do corpo nem da mente. As pernas acompanham o movimento desiquilibrado da parte de cima. O ritmo é agora frenético: os pés esfregam o chão, os joelhos tocam-se alucinadamente, os braços, deixandos os ouvidos porque os gritos se ouvem sempre, arrancam cabelos na força da raiva e todo o corpo fica à beira do abismo. E salta!
Afinal, são já horas de dormir.