23 de Janeiro de 2010

Não.

Questiono frequentemente o direito que têm de me questionar. Com porquês, com por que nãos, com e entãos, com quandos. Não entendo essa ausência do conhecimento completo de tudo. Haverá, aliás, conhecimento completo? De tudo?
As minhas ideias e os meus pensamentos não traduzem nada, são meus. Se nem sempre lhes encontro sentido e se nem sempre lhes faço jus, por que razão interessarão a outros? Não entendo: não me entenderei em outrem, decerto. 
As concretizações do que penso não são fiéis ao meu pensamento e eu não sei porquê. Mas será assim em tudo? Serão todos assim? Porquê? Não me questionem, portanto. Saberei lá agoras e ontens ou razões e sentimentos. Não sei, a sério.
E, se soubesse, não iria querer saber.

2 de Novembro de 2009

pedra.

o ano transacto invalidou-se desde que te foste com a brisa primaveril. mas agora, o bloco de cimento ainda magoa a vista e regela o coração.

24 de Outubro de 2009

quando o amanhã vier...

Gosto de pensar que amanhã é um novo dia!

Que o céu vai transbordar de azul, que se vai inspirar alegria e expirar preocupações. Amanhã todos irão ser amigos e companheiros e solidários para com o próximo: com um sorriso no rosto e uma alma aberta. Os pássaros vão voar mais rápido do que nunca, cantando as melodias com as quais irei ter o prazer de acordar. E as árvores estarão meias despidas das suas folhas e a outra metade estará caída no chão, para as crianças inocentemente nelas saltarem. Haverá aromas agradáveis, lugares novos e toda uma conjuntura de sortes e oportunidades. Os flutuos das viagens serão gratuitos, também. 
Tudo parecerá fácil e não restarão problemas por resolver ou lágrimas por cair.  A mente só realizará o que pretender, não sendo sujeitada a maquinismos diários e doentios. Os dedos escreverão frases verdadeiras de ideias concretas e nada roçará a ficção: amanhã não existirão personagens. A força de lutar será tamanha e nenhuma foto conseguirá jamais descrever essa perfeição. Não se sentirá nem saudade nem hesitação.


O problema é saber, sempre, que afinal não passará de um dia como tantos outros.

20 de Outubro de 2009

Ecos "vivendi"

Entre quatro paredes brancas, uma voz repousa no escuro de uma janela que apenas deixa entrar um mero raio do tímido sol. Essa voz, cansada, seca, calada de todos os gritos que já exclamara, pede descanso ao corpo pesado que a sustenta. E pede-lhe em silêncio, na esperança de o corpo, com as pernas marcadas pelos passos em vão e com os braços cruzados em sinal de desistência, lhe respeitar a súplica. Tudo lhe dói. Ao ponto de o próprio chão lhe doer. E a porta fechada de ruídos exteriores. Nem a cama desfeita dos lençóis brancos lhe escapa. Dói-lhe olhar, respirar, sentir, pensar e tentar deixar de olhar, de respirar, de sentir, de pensar.
E é aí que a voz vibra de novo. Mas vibra como um ramo de uma árvore de jardim que não sabe por que razão vibra. Na sua vibração, balbucia palavras inesperadas e sons inquietantes e gracejos ocultos e pensamentos que julgava não possuir. O espaço quadrado enche-se do ar que os braços, esbracejando, provocam com toda a agitação e nada voa porque nada há que seja passível de se mexer. Só a cama desfeita dos lençóis brancos e as paredes brancas e a janela tímida do sol que acaba por já não entrar. De repente, a perna bate indignadamente numa das paredes e o corpo que ostenta a voz cai.
Cai com dores. Ao certo, a dor não é da perna. Nem do corpo. Também não é da voz. A dor é do vazio e do eco destrutivo que provoca. Numa tentativa de acabar com o silêncio perturbador que multiplica repetições devastadoras, tapa os ouvidos com as unhas roídas dos dedos inquietos das mãos sem direcção. Os cabelos sem água tapam o rosto que as lágrimas lavam e os gritos abafam. O baloiçar do tronco sentado torna-se assustador, mas a voz não sai do corpo nem da mente. As pernas acompanham o movimento desiquilibrado da parte de cima. O ritmo é agora frenético: os pés esfregam o chão, os joelhos tocam-se alucinadamente, os braços, deixandos os ouvidos porque os gritos se ouvem sempre, arrancam cabelos na força da raiva e todo o corpo fica à beira do abismo. E salta!
Afinal, são já horas de dormir.

'São.

às vezes  fecho os olhos
e continuo a ouvir
as palavras aflitas que
procuravam afago.

ouço-as espelhadas nos azulejos,
na porta entreaberta,
nas cortinas corridas da
tua janela fechada.


sinto os passos leves
arrastados pelas pantufas
e o toque austero da bengala
riscada pelas unhas que a seguravam.


recordo os óculos grandes,
dos olhos pequenos,
manchados pelas lágrimas
que corriam sem avisar.


os óculos! esses que viam para
além do imaginário, que viviam
em histórias longínquas, que suportavam o apoio da mão no sofá.


o rádio já não toca:
teve o seu auge nos
finais das tuas tardes
mas também se calou.


eu sei que ainda falas,
pelo menos existe o respeito
pelas tuas opiniões,
ainda que contestadas anteriormente.


os teus vestidos
estão passados e 
o pó da mobília tem sido
limpo - inclusivé a parte
de baixo da cómoda.


[Por isso]
podes vir. outra vez!
não ficas bem lavada em palidez.